Conto de Halloween: Essa tal liberdade

A grande vantagem que sinto quando passo temporadas nos Estados Unidos, em comparação à minha rotina no Brasil, é a sensação de segurança. Mas ontem, depois do atropelamento de pessoas em Manhattan, o jogo virou.

Quando eu vivo mais de um mês aqui, percebo que aquela “sombra” constante que me acompanhava ao atender o celular na rua, ao atravessar apressadamente para o lado oposto da calçada quando os passos de alguém atrás de mim se aproximam, ou ao checar meus retrovisores quando paro o carro em um semáforo à noite… não está mais lá. E aí me dou conta de quanta energia o medo me roubava todo dia, me afastando das experiências bonitas do meu país.

Passei a achar que ter medo da violência é como ter uma tatuagem: não sai da gente, ainda que a gente não perceba. Você ouve uma notícia de assassinato e fica chocado naquele dia; você rabisca a pele e a vê no espelho todos os dias, mas só na primeira semana. Aí os casos se repetem, e estar alerta vira parte da rotina; a tatuagem, parte do seu corpo. Um tiroteio na Rocinha é trivial, um ataque terrorista na América é esperado, e eu nem lembrava das minhas patinhas no ombro até alguém me perguntar a respeito na última vez que usei regata.

Ontem, enquanto eu comprava essa fantasia de palhaço numa loja em NY, meu WhatsApp começou a pipocar com mensagens de amigos e familiares perguntando se eu estava em segurança. Eu olhei ao redor, instintivamente fiz meus ouvidos procurarem algum resquício de barulho estrondoso lá fora e… nada. Sabia que estava, mas me senti vulnerável no mesmo minuto. Foi fácil assumir, mesmo sem ler os links que recebi em mais de uma janelinha de conversa, que um ataque terrorista tinha acontecido em um dos dias mais populares por aqui.

O Halloween é o carnaval do americano. Tem minion de meio metro de idade andando na rua com sacolinhas pesadas de açúcar, e adulto vestido de pica pau na hora do rush no metrô… É um dia feliz, e não coincidentemente, uma das datas mais rentáveis para os Estados Unidos.

 

Voltei pra casa, avisei todo mundo que tava bem, li as notícias e me senti meio paralisada de novo, como muitas vezes senti no Brasil. Só que ao invés de “Vou correr na praia com ou sem meu iPhone?”, eu pensava “É seguro pegar o subway agora? Vou na parada de halloween mais famosa de Manhattan ou esse é um target óbvio para outro atropelamento, quem sabe bomba, um ataque sequencial?!”. Meu direito de ir e vir, tão evidente aqui, esmorecia comigo no sofá. E com a maioria dos meus amigos brasileiros dizendo para eu ficar em casa, acostumados a evitarem situações de perigo.

Depois de olhar para a sacola de fantasia por algum tempo, enquanto policiais contabilizavam as vítimas fatais do ataque, respondi ao Facebook que “Sim, eu estou segura”, fechei o portão baixo do meu prédio e sai em direção ao metrô. Cruzei com um homem aranha e sua mãe vampira oferecendo Twix para o moço do Fedex que entregava a correspondência no prédio deles. Entrei na estação e vi uma japonesa vestida de pikachu disputando espaço no vagão com uma moça de legging carregando seu tapetinho de ioga. A vida aqui também segue.

Encontrei minha amiga de infância, essa palhaça linda da foto, na casa dela. Dissemos para nós mesmas que tava muito frio, abrimos um vinho, pedimos um Uber e fomos comer num restaurante. Tudo sem sair do Brooklyn, a algumas estações de distância do nosso rolê original, que seria em Manhattan. Falamos da saudade que dá do Brasil. Jantamos, ainda com nossos narizes de borracha, gravatas borboletas e calças coloridas, como se fossemos livres.

 

#PrettyLittleLiars

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