Da camiseta branca, tipo Hering, à sola vermelha do Louboutin: exposição no MOMA questiona se a moda é moderna

O MOMA é o Museu de Arte Moderna de NY, e todas as tardes de sexta-feira, patrocinado pela marca UNIQLO, abre suas portas para quem quiser visitá-lo sem gastar nada. Tirei duas horinhas do meu final de tarde da última sexta para visitar a exposição “Items: Is Fashion Modern?” (Itens: a moda é moderna?), que interpreta a relação entre moda e funcionalidade, e como ela reflete aspectos climáticos, culturais, políticos, econômicos e tecnológicos da história. São 111 itens que, apesar de partes de um guarda roupa multicultural dos séculos 20 e 21, foram definidos como “ícones de design”.

Sobre a exposição

Depois de 70 anos sem fazer uma mostra a respeito – a última foi em 1944, e curiosamente chamava “Are Clothes Modern? (As roupas são modernas?) – o Moma dedicou o seu sexto andar inteiro para traçar um paralelo entre antropologia e estética, partindo do que considera serem objetos, e não somente peças de roupa de grandes designers. Logo, não estão expostos itens limitados à moda conceitual (aquela que afasta gente como a gentem das imagens das semanas de Paris), mas também os que integram o cotidiano de homens e mulheres desse mundão.

Uma das organizadoras da exposição disse que, quando viajou para a Índia e Bangladesh pesquisando itens para a mostra, perguntava para as pessoas: “Qual é o estereótipo do sari? Aquele que você imagina quando fecha seus olhos?”. Bom, qual é o nosso esteriótipo de roupa de praia? Biquíni e havaianas? Para as muçulmanas é o burkini, que as cobre num tecido criado para delinear minimamente a sua silhueta, da cabeça aos pés. E tudo isso está lá!

 

Pretinhos básicos questionando o padrão de beleza expresso nas cinturas de diferentes décadas (Chanel, 1925-1927; Charles Creed, 1942; Dior, 1950; Givenchy, 1968; Arnold Scassi, 1966).

 

  1. Le Smoking, Ives Saint Laurent, anos 60: considerado radical para a época, mas ainda reforçava as diferenças de gênero do período considerado como a segunda “grande onda” do feminismo.
  2. Pochete MTV, aqui chamada de fanny pack, pra não dar saudades dos anos 90!
  3. Gravatas Marinella, Van Heusen e Arrow.
  4. Os “head wraps”, ou amarrações de cabeça, que foram obrigatórios para escravos do século 18 até a abolição nos Estados Unidos, como uma forma de estabelecer claramente os “limites” da sociedade, e hoje adornam cabeças orgulhosas de suas heranças culturais, inclusive em forma de protesto. Recentemente no Brasil vimos o tema apropriação cultural ganhar dimensão quando uma jovem branca em tratamento contra o câncer usou um turbante na cabeça.

 

“A POC Queen” (POC: a piece of cloth – uma peça de pano) de Issey Miyake, que consiste num tubo único de tecido de malha, com moldes de recorte prontos para criar, de “forma mais sustentável”, caftans, abayas e/ou macacões.

 

Alô, alô, Marciano! No final dos anos 60 o frenesi da exploração espacial e da consequente pisada na lua inspiraram os fashionistas a vestir humanos como personagens de StarTrek.

  1. Moon boot (bota lunar), 1970, da Tecnica
  2. Dois exemplares da coleção Pierre Cardin Cosmos, de 1967.
  3. Moooito mais que um moletom (Hoodie, 1980, Champion). Criado em 1930 para manter o corpo dos atletas aquecido durante os treinamentos; na década de 50 virou o queridinho dos universitários e trabalhadores que desempenhavam atividades externas; nos anos 80, o uniforme dos grafiteiros, que o usavam para proteger seus rostos; e, mais recentemente, Zuckerberg o adotou no ambiente corporativo, num conceito que defende o minimalismo no dia a dia para otimizar a tomada de decisões “mais relevantes”. O caso Trayvon Martin, ocorrido em 2012, transformou o moletom num símbolo de protesto. O adolescente negro foi morto na Flórida porque, segundo seu assassino, ele aparentava perigo ao usar o capuz do moletom, que inibia o seu rosto. As pessoas saíram nas ruas usando o hoodie, e claro, com o capuz na cabeça, num movimento chamado de “Hoodies Up” .

 

Adidas Superstar: criado em 1983 para jogadores de basquete, e adotados por todas nozes. Eu uso praticamente todo dia um modelo criado em parceria com a marca brasileira Farm! E um Scarpin Louboutin, 2004 (finge que não fotografei a sola vermelha como uma manifestação artística também e tals).

 

  1. Calça de couro, 1989.
  2. Tatuagem projetada no manequim, aqui interpretada como uma vestimenta.
  3. Calças capri, Sonja de Lennart, 1940.
  4. A camisa flanelada feita em lã e originalmente adotada por lenhadores para se protegerem do frio no trabalho, ganhou popularidade após Kurt Cobain usá-la em um show do Nirvana nos anos 90.
  5. Hit nos anos 60, os shift dresses foram considerados democráticos por redefinirem o contorno do corpo da mulher. Na esquina com os minis, está o vestido do Bob Dylan, que uma fã vendeu por 3 dólares.

 

  1. Burkini é o mix entre burca e biquíni, criado por uma australiana nos anos 2000 que queria facilitar o acesso da sobrinha muçulmana à prática de esportes aquáticos, sem abrir mão da modéstia exigida pela sua religião. Ganhou polêmica quando, após um ataque terrorista em Nice, em 2016, governos do sul da França decidiram banir a vestimenta das suas areias, inclusive expulsando mulheres que as vestiam na praia. Aqui, emparelhado com um biquíni da marca brasileira Blue Man.
  2. Havaianas, 1992. Estava ao lado de um gringo fazendo essa foto e ele disse: “Oh! I didn’t realize that ‘havaianas’ was a reference to Hawaiian people”. Outra curiosidade é que na plaquinha que descreve o chinelo nosso de todo dia, o Museu diz que foi “emprestada pela Alpargatas”. Mas, gente… Custa menos que um ingresso do MOMA.

 

  1. Depois da Revolução Cubana, de 1953 a 1959, a Guayabera foi adotada como traje oficial pelo Governo Comunista, tendo em vista suas origens humildes. Feito de linho e com grandes bolsos, acredita-se que o primeiro tenha sido usado ainda no século 18. Tem versões semelhantes no México (Yukatan Shirt), Chacabana (República Dominicana) e Jamaica (bush Jacket) e hoje ainda é visto nas ruas de Miami, em um manifesto de conexão com aqueles que foram obrigados a partir dos EUA.
  2. Kippah, o acessório que os judeus usam na cabeça, principalmente em eventos solenes e de devoção, em sinal de reconhecimento da superioridade divina sobre o ser humano.
  3. Legends will be legends! Em 2013 Kaepernick foi considerado um dos melhores jogadores de futebol Americano do mundo; em 2017, ele está sem time depois de protestar contra a brutalidade policial contra negros, ajoelhando durante o hino nacional dos Estados Unidos antes do início de uma partida. Ao lado, a camisa 10 (inspirada no modelo de 58) mais poderosa que o MOMA já viu. Salve! “The Jersey of Brazilian football hero Pelé is a worldwide favorite”. Ou, ié.

 

  1. A calça chino, usada por militares americanos e britânicos no final dos anos 1800, ao lado de um modelo criado por designers baseados na África do Sul, os The Sartists, que desenvolvem peças refletindo sobre a história do política do país, impactada pelo apartheid e o colonialismo, com o objetivo de retomar o orgulho nacional em oposição à visão dos “outsiders” sobre eles; nesse traje, trazem as referências da guerra, na cor khaki, e também falam sobre “o traje ideal para ir à Igreja aos domingos”.
  2. O Trench Coat (modelo atual da Burberry), que tem suas origens nas trincheiras de guerra – “trench”, em inglês – do exército britânico na primeira guerra mundial; também por isso sua cor clássica ser a que facilitava a camuflagem dos soldados.

 

“Tinkerbell Dress” foi o apelido dado para essa criação de Richard Nicoll com o Studio XO em 2015, que na verdade leva o nome de Optical Slip Dress, e é composto de fibra ótica e luz LED. Possivelmente a primeira roupa “usável” hi tech pra quem curte fazer a camaleoa.

 

Ao final da exposição, um hall de ternos retoma a moda masculina com versões interessantes como o Giorgio Armani brilhante dos anos 90, e um Zoot Suit (1940–42), que surge nos anos 30, adotado pelos músicos de jazz, como o contra-ponto do uniforme da classe trabalhadora apelidada de “salaryman”. “Zoot” é o jargão para descrever “exagerado”, e seu visual, além de conferir liberdade de movimento para a classe, foi adotado orgulhosamente por jovens negros, latinos, filipinos e judeus que queriam se diferenciar da “América cristã branca”.

Atos racistas se sucederam: a Zoot Suit Riots foi uma série de ataques na Califórnia (LA) que aconteceu em 1943, quando marinheiros americanos agrediam e arrancavam os ternos dos negros e latinos (mortes, inclusive), sob o argumento de que usá-los era um ato anti patriotismo em um período de guerra, já que os zoot suits exigiam mais tecido do que os ternos comuns num período de racionamento de materiais.

 

Todo dia todo mundo veste algo desde que… não, pera, o mundo já era mundo quando começamos a nos cobrir. Então eu responderia sim à pergunta que dá nome à essa exposição: a moda é moderna; e cíclica, como minha velhota pontua constantemente quando diz “Ihhh… Vou ali pegar uma foto da vó pra você ver esse mesmo desfile passando agora TV numa imagem estática, em preto e branco, dos anos 30”.

Mães sempre têm razão. 

A exposição é uma manifestação cool e cínica, já que tem lá suas incoerências sobre os padrões de beleza que norteiam a moda até hoje. Um tênis Nike protegido por quatro paredes de vidro e sendo fotografado como peça de arte não poderia ser mais Black Mirror; todos os manequins expostos tinham a mesma forma e tamanho (a.k.a 36) das vitrines da Quinta Avenida aqui de NY. Numa área que expunha calcinhas, cuecas, sutiãs e meias compressoras, uma moça ao meu lado agachou para explicar para a filha, ainda no carrinho de bebê, sobre uma bermuda cor de pele: “aquilo ali nós usamos para deixar tudo ‘no lugar”. Nós, claro, mulheres.

Saí do Museu pensando na minha lista de 111 itens essenciais, considerando que ainda tenho dificuldade de fechar malas de viagem com menos de 32kg. Pensei também nas marcas de fast fashion me seduzindo para comprar peças em 12 estações do ano, ao invés de 4, mas defendendo a moda genderless – afinal, compartilhar a jaqueta oversized com o boy deve ser mais sustentável.

Fato é que eu nunca vou sequer passar pelo lixão dos cantos esquecidos do mundo em que as minhas camisetas básicas brancas (cinzas, azuis, listradas e pretas) serão depositadas… E ainda assim essa exposição me fez entrar na Amazon pra comprar uma camisa do Kaepernick, minha espécie de hoodie up. Tô ligada e sigo driblando araras no desafio de ser uma consumidora mais consciente.

E aí, migs? Quais são as consequências sociais do design moderno? Ele melhora a qualidade de vida, ou só a torna mais complexa?!

 

 

A exposição “Items: Is Fashion Modern?” fica no sexto andar do MoMa até dia 28/1/2018.

 

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