#YayoiKusama A mostra da “rainha das bolinhas” que provoca as filas mais longas de NY!

Pense numa senhora japonesa com quase 90 anos de idade. Pensou?

A não ser que já a conheça pelo nome, duvido que a imagem que lhe vêm à cabeça é semelhante à da atual persona adotada por Yayoi Kusama. Ela tem cabelo laranja, é sempre vista com vestidos coloridos de poá, mora em um hospital psiquiátrico (por opção), e suas exposições em NY provocam filas de 3 horas de duração. Considerada uma marca global da indústria da arte, o trabalho de Kusama, que sempre operou como uma empresa, dança entre surrealismo, minimalismo e pop art. Te convido a pular a fila e visitá-las comigo nas fotos e vídeos a seguir, já com um resumão da personalidade curiosa que a transformou numa japa muito louca, a “rainha das bolinhas”!

E se tiver planos de visitar a City em breve: as exposições “Festival of Life” e “Infinity Nets”  ficam abertas ao público nas galerias David Zwirner até o dia 16 de dezembro de 2017, em Uptown (Street34 East 69th Street) e Downtown (525 e 533 West 19th Street), respectivamente.

 

 

ANTES, Yayoi Kusama, a rainha das bolinhas, em 15 bolinhas

  • Nasceu em 1929 no Japão (quer dizer, numa sociedade patriarcal e super careta).
  • Quando criança, começou a ter alucinações visuais e auditivas, que incluíam bolinhas que flutuavam na sua perspectiva de imagens do dia a dia.

“Since my childhood, I have loved the round image of dots. Over several decades, dots have created, working together with net patterns, various types of paintings, sculptures, events and installations. They have indeed been moving freely about in the heaven of forms and shapes. Dots have taught me the proof of my existence. They scatter proliferating love in the universe and raise my mind to the height of the sky. This mysterious dots obsession. Dots even enter my dreams with art playing a trick on them, art which I love so deeply”.

“Desde a minha infância eu amo a imagem arredondada de pontos. Durante muitas décadas, pontos criaram, junto com padrões líquidos, muitos tipos de pinturas, esculturas, eventos e instalações. Eles realmente se movem livremente no paraíso de formas. Pontos me provaram a minha existência. Eles despertam a proliferação do amor no universo e elevam minha mente até o céu. Essa misteriosa obsessão por pontos… Pontos fazem truques até nos meus sonhos com arte, arte que eu amo tão profundamente.”

  • ABUSO INFANTIL. Forçada pela mãe, ela espiava o pai tendo relações sexuais extra conjugais com gueixas e prostitutas. Quando manifestou interesse em ser artista, foi reprimida pela mesma mamãe (representada no desenho abaixo da artista, de 1939), que dizia que ela deveria ser uma “boa esposa” e casar com um homem rico.
  • Nos anos 50 começa a estudar pintura, ainda em Kyoto, e muda para os Estados Unidos no final da década.
  • O pontilhismo nasce na sua esquizofrenia e passou a retratar (e camuflar) tudo que ela manifestava de forma plástica: cavalos, rios, casas, etc.
  • FREUD DEVE EXPLICAR. Talvez por conta desse histórico familiar, desenvolveu um apreço por símbolos fálicos e uma fascinação por voyeurismo; isso ficou mais evidente em 1959, quando ela expôs em parceria com o artista Claes Oldenburg objetos do dia a dia, como sofás, escadas e sapatos, cobertos com formas de tecido que imitavam salsichas brancas.
  • CAMPBELL’S SOUP IS ON FIRE! Nos anos 60, com o auge da arte pop e da histeria psicodélica dos hippies de NY, começa a trabalhar (e influenciar) artistas como Andy Warhol. Warhol nega, porém, a influência da japa. Ao que ela respondeu em uma entrevista, rindo:

“After Warhol came to my ‘1,000 Boat’ show, he called to ask permission to use my patterns in his silkscreens. But I refused. I had been working with repetition for years by that time, ever since my 1959 exhibition at the Brata gallery. (…) Warhol’s repetitions came from me — But my repetitions came from my childhood.

“Depois que Warhol veio à minha exibição ‘1000 Boat’, ele me ligou para pedir permissão para usar meus motivos na suas estampas de serigrafia. Mas eu recusei. Eu já vinha trabalhando com repetições há anos naquela época, desde a minha exposição na Brata Gallery.(…) As repetições de Warhol vêm de mim – mas as minhas repetições vêm da minha infância”.

  • PELADOS, PELADOS, NU COM A MÃO NAS BOLINHAS. O movimento underground e toda a promiscuidade e alucinações relacionadas à ele, fizeram de Kusama uma organizadora de orgias. Os hippies envolvidos tinham seus corpos nus também pintados com bolinhas pela anfitriã (que não participava do ato sexual em si) até a polícia chegar para acabar com a festa – muitas vezes organizada em locais tão públicos como a Brooklyn Bridge ou o Central Park. Foi nesse período que ela ficou famosa, veja só que coisa.
  • SEXO, PAZ E AMOR. Ativista do movimento hippie, além dos eventos públicos em que por vezes queimou bandeiras, chamou uma de suas manifestações de “Nixon Orgy”, em referência ao então Presidente dos Estados Unidos, e até ofereceu sexo em uma carta à ele, sob a condição do país encerrar a Guerra do Vietnã.
  • EXPULSA DA BIENAL! Em 1966, em uma participação extra oficial da artista na 33ª. Bienal de Veneza, ela instalou clandestinamente sobre um gramado entre os pavilhões da exposição 1500 bolas espelhadas que eram vendidas a dois dólares cada a quem tivesse interesse. “Seu narcisismo à venda”, como descrevia a placa alojada entre as esferas, mostra a crítica irônica da artista ao universo da arte e seus sistemas de repetição e mercantilização. Ela foi expulsa da Bienal, onde retornou apenas em 1993 para representar o Japão novamente. Hoje uma nova versão dessa escultura está exposta no Brasil, em Inhotim, sobre o nome de Narcissus Garden Inhotim (2009), onde 500 esferas de aço inoxidável flutuam sobre a água, criando formas que se diluem de acordo com o vento e outros fatores externos, como a paisagem do céu, da vegetação, e do espectador – criando, nas palavras dela, “um tapete cinético”.
  • VOU ALI MORAR NO MANICÔMIO. Nos anos 70 ela retorna ao Japão e decide se internar numa instituição meio asilo, meio hospital psiquiátrico em Tóquio. Ela descreve sua “casa” como “muito confortável, muito privada e muito simples”.
  • Ela viveu um grande amor com o escultor Joseph Cornell por 10 anos; o relacionamento termina com a morte dele.
  • Depois de um hiato em que se dedicou a escrever livros de romance, poemas e autobiografias, Kusama retomou suas criações psicodélicas no fim dos anos 1990.
  • Em 2008, um dos seus quadros de bolinhas infinitas foi vendido por mais de 5 milhões de dólares, um recorde para artistas mulheres. Em 2014, seu quadro “White No. 28, de 1960”, foi vendido na galeria Christie’s New York por mais de 7 milhões de dólares.
  • VOU ALI MORAR NO MANICÔMIO E JÁ VOLTO. Até hoje ela mora no hospital psiquiátrico por opção, mas também mantém um apartamento a 5 minutos de distância a pé do local, onde conserva seu estúdio de arte e trabalha de segunda a sábado, reservando os domingos para escrever, ler e falar ao telefone.

 

AGORA QUE JÁ SOMOS ÍNTIMOS DELA, VAMOS À EXPOSIÇÃO DE NY!

Bolinhas disputadíssimas para timelines do mundo inteiro. A mostra “Festival of Life” é composta de 3 salas e 66 quadros, divididos em dois espaços da galeria David Zwirner, localizada no Meatpacking District de NY. Para o espaço com os quadros, não há filas – os instagrammers dos quatro cantos do mundo ficam loucos mesmo e dispostos a enfrentar a longa fila para experimentar as três outras salas, onde só entram seis pessoas por vez.

 

Os quadros. Alinhados em duplas, um em cima do outro, a série de 66 quadros “My Eternal Soul” da artista, que começou a pintá-los em 2008, envelopam espontaneamente uma grande sala da galeria, mostrando provavelmente a criança que ainda mora nela. São cores vivas expressas em formas mutantes que lembram rostos, flores e até amebas. Tudo meio subjetivo, sem começo, nem meio, nem fim… Um movimento que dá a impressão de ver um quadro continuado no outro, e te transporta para a mente muito louca e muito viva da Kusama.

 

Infinity Mirror Room 1. Completamente revestida de espelhos, com exceção ao piso, e com dúzias de esferas também espelhadas que caem do teto e repousam no chão, a primeira sala da parte mais disputada da exposição te coloca num infinito de órbitas prateadas. No centro, outra caixa te coloca em um segundo universo ainda mais repetitivo de fracções de imagens infinitas.

O infinito é uma das obsessões de Kusama, e pode simbolizar a enormidade de amor, morte e Deus, constantemente invocados nos títulos das suas obras e nas suas poesias. A proposta também faz lembrar à exposição nas águas de Inhotim, no Brasil, uma releitura da Bienal de Veneza, da qual ela foi expulsa em 1966 (conforme contei no numa das bolinhas acima com a história dela).

 

Infinity Mirror Room 2. A segunda sala, um quarto preto com uma caixa hexagonal preta no meio, com buracos arredondados (claro) em cada uma das seis extremidades, para os visitantes repousarem a sua cabeça e observarem um show de luz em movimento provocado por mini lâmpadas coloridas que me lembraram o caleidoscópio, aquele brinquedo feito num cano de papelão que você colocava o olho e, girando com as mãos, diferentes imagens iam se formando, sabe?

 

“With All My Love for the Tulips, I Pray Forever”, 2011 (“Com todo o meu amor pelas tulipas, para sempre eu rezo”). Instalação de três grandes esculturas de tulipas, em uma sala que segue do teto ao chão o mesmo padrão de fundo branco e bolinhas vermelhas e confundem qualquer noção de profundidade.

Para entrar, a gente precisa colocar uma sapatilha de saco plástico, tipo look UTI, de forma a proteger o piso branco da sujeira. E como você pode perceber, eu não fui a única a me vestir com vermelho lá, na tentativa de me misturar ao cenário. Esse é o dress code do rolê, só pros mais caretas.

 

E aí? Curtiu? Conhece alguém que tá vindo pra NY?

Recomenda a amiguinha aqui!

 

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